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Entrevista: Graeme Bilbe, chefe global de Neurociências na Novartis

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O HDBuzz entrevista Graeme Bilbe, chefe global de Neurociências da gigante empresa farmacêutica Novartis, acerca da s

Escrito por Dr Ed Wild em 04 de Abril de 2011Editado por Dr Jeff Carroll; Traduzido por Eliana Marisa RamosPublicado originalmente a 14 de Março de 2011

Uma das maiores empresas farmacêuticas a nível mundial, Novartis, tem estado a trabalhar nos últimos cinco anos, em tratamentos para a DH. O HDBuzz entrevistou Graeme Bilbe, chefe global de Neurociências na Novartis, para saber mais sobre o seu progresso.

As empresas farmacêuticas não se importam com a DH, certo?

Pergunte a qualquer cientista que participe regularmente em conferências sobre a DH, e vai ouvir falar sobre o espírito global e único de cooperação e colaboração entre a comunidade científica da DH, e da relação próxima entre as famílias com a DH e os médicos e cientistas que trabalham para descobrir tratamentos.

Graeme Bilbe, Chefe global de Neurociências na Novartis
Graeme Bilbe, Chefe global de Neurociências na Novartis

Historicamente, o envolvimento da indústria farmacêutica na investigação da DH, tem contudo sido raro. As empresas farmacêuticas ganharam reputação de estarem maioritariamente interessadas nas doenças comuns que poderiam ser mais lucrativas. Existe mesmo um nome - “doenças órfãs” - para patologias que, por serem tão raras, não faz sentido a nível financeiro, serem objecto de estudo pelas empresas farmacêuticas.

Nos últimos anos, isto começou a mudar para a DH. As empresas farmacêuticas estão a ficar cada vez mais interessadas na doença de Huntington, e algumas começaram a dedicar recursos significantes no desenvolvimento de tratamentos. Uma dessas empresas é a Novartis - a quinta maior empresa farmacêutica do mundo e, de acordo com os membros da indústria, a melhor a nível da produção de novos medicamentos eficazes. Desde há cinco anos, a Novartis tem uma equipa de cientistas a trabalhar na DH e, como poderemos ver, fizeram progressos impressionantes.

Na mais recente conferência sobre terapêuticas organizada pelo CHDI em Palm Springs, o HDBuzz encontrou-se com o chefe global de Neurociências na Novartis, Dr. Graeme Bilbe, para saber mais sobre o programa de investigação em DH da Novartis.

Porque é que a Novartis está a trabalhar em DH?

Começamos por perguntar porque é que a Novartis começou a fazer investigação na DH quando, financeiramente, pode parecer mais sensato trabalhar em doenças neurológicas mais comuns. Doenças neurológicas degenerativas tais como a DH e Alzheimer, respondeu Bilbe, são “crónicas, são lentas, são realmente difíceis”, o que torna o seu estudo dispendioso e o seu tratamento difícil. Além disso, a maioria destas doenças surgem ao acaso: “Não sabemos ao certo quem são os doentes que vamos tratar” por isso desenvolver medicamentos de prevenção é ainda mais difícil. Depois de muito tempo a tentar, a indústria farmacêutica apercebeu-se que trabalhar com doenças neurológicas degenerativas é muito frustrante, com milhões de pessoas afectadas e poucos sucessos.

A DH é diferente, diz Bilbe. Como sabemos exactamente qual a mutação genética que causa a DH, “acreditamos que podemos vencer as dificuldades. Sabemos quem são os doentes, e isso torna todo o processo de descoberta de medicamentos, saber como os testar e em que doentes devem funcionar, muito mais previsível.”

A importância de se saber qual o problema genético responsável pela DH não pára por aí para a Novartis. “Para entender uma doença, tem de se entender os mecanismos biológicos da doença”, diz Bilbe, cuja filosofia é simples quando se trata do desenvolvimento de medicamentos. “A nossa estratégia para lidar com uma doença é Gene, Mecanismo, Doente.” Saber qual é o problema genético que causa a DH é um enorme ponto de partida, diz ele. “Nós temos aqui um gene - estamos a tentar descobrir exactamente o que faz, queremos saber o seu mecanismo, a sua via de acção - como danifica as células e, em seguida, o organismo.” A partir daí, os cientistas podem identificar os “alvos” mais promissores - etapas individuais no caminho entre o gene e o doente, que os medicamentos podem ser capazes de alterar.

«Temos três abordagens, e uma delas espero que este ano consigamos prosseguir para ensaios clínicos. »

Programas da Novartis sobre a DH

Entrando mais em detalhes, perguntamos a Bilbe que alvos a Novartis considera mais promissores. “Acreditamos que a doença se deve à acumulação da proteína mutada”, ele respondeu, “por isso, a maneira mais simples é desenvolver um medicamento para remover a proteína.” O principal interesse da sua equipa é o desenvolvimento de medicamentos que aumentem a capacidade natural das células para se livrarem de proteínas nocivas.

Como é que está a Novartis após cinco anos? “Já estamos a testar os nossos medicamentos para os problemas nos movimentos relacionados com a DH, "AFQ056”. Em relação aos tratamentos que atrasem o progresso da doença, temos três abordagens,“ diz ele, "e uma delas espero que este ano consigamos prosseguir para ensaios clínicos. Portanto, em termos de descoberta de medicamentos estou muito satisfeito porque em cinco anos temos algo que vai passar para testes em doentes.”

Cinco anos pode parecer muito tempo, mas para Bilbe, com experiência no desenvolvimento de novos medicamentos, é bastante rápido. Para se chegar a um tratamento eficaz, diz ele, “normalmente, é preciso estar a trabalhar durante dez anos ou mesmo mais. Demora muito tempo. É necessário perseverança e visão a longo prazo. Ainda é cedo, mas estamos confiantes.”

Desenvolver novos medicamentos também não é barato e, uma coisa importante que as empresas farmacêuticas podem trazer para uma comunidade de doentes são os enormes investimentos iniciais que são necessários para tornar os tratamentos uma realidade. “Para se descobrir um medicamento estamos a falar em investir cerca de um bilhão de dólares em possíveis medicamentos antes de se encontrar o que realmente chega às farmácias.”

Porque é que é tão difícil desenvolver novos medicamentos?

O processo é tão dispendioso, diz Bilbe, devido ao que ele chama de “atrito”. Isto significa que a maioria das ideias que parecem promissoras à primeira vista não resultam em medicamentos que funcionem. “Pode começar com dez mil ideias, e provavelmente irá trabalhar em cem dessas ideias. Pela altura em que chega aos testes em humanos, essas cem ideias deverão ter sido traduzidas em cem medicamentos, mas não são - poderá ter dois ou três medicamentos, dos quais um poderá chegar ao doente. Cada sucesso está a pagar por todas as coisas que falharam.”

Sede da Novartis em Basel, Suiça
Sede da Novartis em Basel, Suiça
Autoria da imagem: Novartis

Porque é que tantas boas ideias falham? Muitas coisas podem correr mal, diz Bilbe, porque doenças como a DH são muito complexas. Por vezes um alvo promissor, num estudo mais aprofundado, deixa de ser tão importante como se pensou inicialmente. Alguns alvos acabam por ser impossíveis de se “atingir” com um medicamento, por mais cuidadosamente que tenha sido concebido o medicamento. Por vezes os medicamentos funcionam no laboratório mas inesperadamente têm um fraco desempenho quando testado em animais ou humanos, por não funcionarem ou por causarem efeitos secundários adversos. “Estes níveis de atrito estão a mudar à medida que nos tornamos melhores naquilo que fazemos,” insiste Bilbe, devido a novas abordagens tais como o modelo “Gene, Mecanismo, Doente”.

Novartis e a comunidade Huntington

Com todo este investimento, é fácil de imaginar a Novartis a trabalhar isoladamente mas a realidade é muito diferente. A equipa de Bilbe reconhece o enorme progresso que toda a comunidade de investigação académica em DH tem feito, e a colaboração com os especialistas existentes é fundamental na abordagem que a Novartis faz em relação à DH. “Estamos a tentar trabalhar com os melhores grupos académicos do Mundo em investigação clínica.”, diz ele. Parcerias como esta, entre investigadores académicos e indústrias, são essenciais para a descoberta da maioria dos novos medicamentos.

A colaboração funciona nos dois sentidos, e a Novartis já prometeu partilhar um dos seus êxitos mais proeminentes com toda a comunidade Huntington - um teste laboratorial que permite, pela primeira vez, medir directamente os níveis de proteína huntingtina mutada. Bilbe não está a exagerar quando descreve o teste como um importante ponto de transição na investigação porque saber quanto da proteína nociva resta é essencial para avaliar o sucesso dos tratamentos para removê-las.

Com toda a comunidade Huntington em mente, quisemos aproveitar a experiência de Bilbe no desenvolvimento de medicamentos bem sucedidos para perguntar o que pensa que os doentes de Huntington e suas famílias podem fazer para ajudar a aproximar os tratamentos. “Precisamos que tenham mais consciência de que temos hipóteses realmente viáveis de encontrar a cura para esta doença”, respondeu ele. “A comunidade tem de estar preparada, alguns vão ser decepcionantes, alguns serão um "talvez” e um ou dois deles poderão vir a ser algo bom. Temos de ser realistas. Vão haver desafios no desenvolvimento clínico de qualquer medicamento. Sem essas decepções, não aprendemos.“

O futuro

Por todo o seu realismo inabalável, Bilbe continua alegremente optimista sobre a possibilidade dos investigadores em DH ligados à ciência e indústria encontrarem tratamentos bem sucedidos para melhorar a vida das pessoas afectadas pela DH. "Temos enormes montanhas para escalar”, ele admite, “e provavelmente vamos ter decepções ao longo do caminho. Para se ser optimista, primeiro temos que ser realistas, e depois temos que ter opções. Assim que tivermos realismo e opções, podemos começar a acreditar no sucesso.”

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